9. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 1.5.13

1. O LUTO DOS ANIMAIS
2. A FRMULA DE PORTLAND

1. O LUTO DOS ANIMAIS
Pesquisadora americana comprova que bichos selvagens e domsticos sofrem e demonstram tristeza aps a perda de companheiros
Juliana Tiraboschi

Harper e Kohl eram amigos inseparveis. Por causa de uma fratura mal curada, Kohl no caminhava direito. Quando parou de andar e a dor se tornou insuportvel, foi sacrificado. Harper assistiu ao procedimento, deitou-se ao lado do corpo e l permaneceu por horas. Durante semanas, Harper ia todos os dias ao local favorito da dupla, perto de uma lagoa em Watkins Glen, nos Estados Unidos. Quando as pessoas se aproximavam, ele ficava arredio e assustado. Depois de dois meses, Harper tambm morreu. Essa histria, que descreve emoes muito humanas como tristeza e medo, aconteceu com dois patos e foi a que mais impressionou a antroploga americana Barbara King durante suas pesquisas para o recm-lanado livro How Animals Grieve (Como os Animais Ficam de Luto), sem verso em portugus.

SELVAGENS - Chimpanzs, pssaros e elefantes esto entre os animais que reagem com sofrimento  morte de semelhantes
 
Barbara comeou sua carreira estudando chimpanzs. Com o avano das pesquisas, descobriu que um sistema emocional complexo e profundo, ainda no totalmente compreendido pelos cientistas, integra a personalidade de vrios animais, indo muito alm dos primatas, elefantes e golfinhos  as estrelas da inteligncia entre os bichos. Cavalos, coelhos e pssaros so muito interessantes. Dependendo da personalidade do indivduo e do estmulo que eles recebem, podem desenvolver um grau maior de empatia por seres semelhantes, afirma a pesquisadora. Essa empatia, que pode ser vista na tristeza demonstrada aps a morte, est vinculada tambm  necessidade de alianas dentro de um bando. Indivduos dominantes sofrem mais com a morte de outro animal do grupo do que os submissos, diz o zootecnista e especialista em comportamento animal Alexandre Rossi, apresentador do programa Misso Pet, do canal National Geographic.

Entre animais selvagens, as cenas de luto e tristeza vo desde chimpanzs que observam em silncio o companheiro morto at elefantes que estendem as trombas a um filhote moribundo. No caso de animais domsticos, as ligaes so ainda mais fortes. A empresria Mariana Delbue, de So Paulo, passou por dificuldades com a labrador Luna quando a cadela perdeu a me, que sucumbiu a um cncer em fevereiro. Ela ficou uma semana sem comer direito, quase no bebia gua e ficava entrando e saindo da casinha, chorando, diz. Para ajudar a cadela a superar o luto, a famlia a deixou dormir dentro de casa e a submeteu a um tratamento com antidepressivos. Ela parou de chorar e voltou a comer, mas virou a minha sombra, ficou superapegada a mim, diz Mariana.

Embora o luto seja uma realidade entre os animais, Barbara ressalta que a cincia est longe de desvendar totalmente o grau de compreenso deles sobre o fim da vida. Nem toda a resposta  morte significa luto, diz. Alguns bichos reagem com curiosidade, cutucando o cadver. Outros parecem indiferentes  perda de um companheiro e at praticam canibalismo. O luto deles  diferente do nosso. Pessoas sofrem por estranhos e conseguem canalizar esse sentimento de vrias formas, diz. No entanto, a comprovao de que alguns bichos sentem a perda de seus semelhantes mostra que as emoes no so, definitivamente, exclusividade do ser humano.


2. A FRMULA DE PORTLAND
Como a cidade que j foi uma das mais sujas dos Estados Unidos virou o jogo, atraiu investimentos e serve de exemplo para municpios brasileiros que buscam qualidade ambiental
Juliana Tiraboschi

Portland, no noroeste dos Estados Unidos, tem o apelido de stumptown, ou cidade do toco. A expresso remonta ao sculo 19, quando os restos de rvores cortadas marcavam a paisagem da regio. Nesse perodo, Portland foi considerada uma das cidades mais sujas do pas, por causa do esgoto a cu aberto e dos rios poludos. O declnio da indstria madeireira, no final dos anos 1970, levou a regio a uma forte crise, mas tambm marcou a virada de jogo do municpio.

FLORADA - Cerejeiras embelezam um dos 288 parques de Portland, no noroeste dos EUA
 
Disposta a desenvolver uma economia completamente nova, a cidade ofereceu incentivos para atrair empresas de tecnologia e companhias preocupadas com a sustentabilidade. Portland investiu na preservao de reas verdes e construiu a malha de transporte pblico mais diversificada dos EUA (confira no quadro). Hoje, abriga escritrios de empresas como Microsoft, Nike, Boeing e Intel e  considerada a mais verde das cidades americanas. Essa histria  que a primeira-dama Nancy Hales vem contar no evento Sustainable Brands Conference, entre 8 e 9 de maio, no Rio de Janeiro  atraiu a ateno de municpios brasileiros que agora querem seguir o exemplo americano.
 
Nancy dedica 100% de seu tempo a divulgar projetos de transporte, moradia, saneamento e manejo de recursos. Queremos compartilhar, ensinar e aprender, afirma. Ela v o Brasil como um parceiro estratgico, com municpios capazes de aplicar as ideias de Portland. Uma comitiva de Indaiatuba (SP), de 200 mil habitantes, foi a primeira a visitar a cidade americana, no incio de abril. Uma das ideias mais interessantes que vimos l foi um ptio com painis para captao de energia solar, que movimenta as bombas de tratamento de esgoto, diz o prefeito Reinaldo Nogueira.

EXEMPLO - O trem leve de superfcie, uma das muitas opes de transporte pblico em Portland, e a primeira-dama da cidade, Nancy Hales, embaixadora da causa sustentvel

Outra cidade brasileira que comea a seguir os passos de Portland  Jaragu do Sul (SC), de 148 mil habitantes. Queremos desenvolver o setor de mobilidade e atrair empreendimentos de tecnologia, afirma o prefeito Dieter Janssen, que conhecer o municpio dos EUA no fim de maio. Mas nem tudo que serve para uma cidade se encaixa em outra. Em Portland h bebedouros pblicos com gua potvel que ficam ligados o tempo todo. Falei para o prefeito que era um desperdcio, mas ele respondeu que aquele era um costume local, diz Reinaldo Nogueira. Exemplo, sim, mas com as devidas adaptaes.
